Uma das principais formas de obtenção da felicidade - momentânea - é a celebração, e não importa o motivo desta reunião, se é para festejar uma fase que se inicia, uma vida, a memória de uma morte, de um desafio vencido, sempre nos reunimos entusiasticamente em torno da celebração de algo.
Uma notável filósofa americana diz que para uma celebração ser completa e nos elevar aos ares de felicidade e euforia precisa ter:
- símbolos: pelos quais os participantes possam se identificar;
- fantasias e personagens: não importa se figurativamente, com roupas e acessórios, ou se usando do apelo pessoal para encenação;
- perda, esperança e conquista: um amor perdido, a esperança de um mundo melhor, a conquista de qualquer grande sentimento;
- corpos: desnudanados e enlouquecidos, com certo apelo sensual.
- Liberdade: o principal componente, pois sem a liberdade não há felicidade nem celebração.
Tenho visto muitas pessoas relatarem que se sentem péssimas quando voltam da balada. Algumas dizem que se sentem assim após o uso de algum entorpecente, outras relatam a mesma situação sem mesmo terem ingerido alcóol, o que me fez perguntar a razão de algumas pessoas se sentirem mal após a mesma experiência em que outras pessoas não relatam a mesma situação.
Me pus a analisar o mérito e observei certas particularidades. Comecemos pelo fato de que as celebrações precisam ter alguma relação particular conosco, deve ter alguma representação particular nem sempre consciente. Às vezes se vai à balada querendo companhia de estranhos (ausência de julgamento), companhia dos amigos (sentimento de unidade, de parte de um todo), em busca de um amor (pequeno romance, o tal lance da "dor, esperança e conquista"), pelo hedonismo e voyerismo. Enfim, a balada tem que ter um motivo específico. Pergunte-se: que motivo me faz sair de casa num sábado a noite? Mas ser feliz ou ter momentos de prazer não é uma resposta, é um objetivo, portanto justifique seu objetivo em termos racionais, com três por quês:
Eu quero por...X
Porque X? por Y!
Porque Y? por Z!
Porque Z? .... eis sua resposta.
Sinceramente me preocupo com meus amigos que relatam esse sentimento de vazio pós-balada, já que isso denota que a celebrção foi um grande engano da mente contra sí mesma. Nosso Ego querendo enganar ao Id, sendo que este nos confrontará tão logo assuma o comando e então nos vemos aos prantos sem saber o motivo dessa depressão.
Há de convir comigo que é estranho pensar em alguém que se sente mal depois de momentos de felicidade extrema. Não estaríamos preparados para essa vivência intensa? ou será que no meio da ocorrência algo em nossa química mental nos mente a ponto de acharmos que está tudo bem quando tudo vai mal?
Pois quero voltar a tratar da liberdade, último e principal ítem em nossa lista acima.
Preste atenção que toda e qualquer felicidade vem através do sentimento de liberdade: liberdade para amar, liberdade para ir, vir e estar no lugar que se quiser, liberdade para expressar sua identidade, liberdade de pensamento, de criação. A felicidade existe em razão do sentimento de liberdade. Só se pode ser feliz se se está livre, livre de julgamentos, livre de rótulos, livre... Em alguma parte dos nossos compartimentos cerebrais, pegamos aquilo que nos amedronta, que nos envergonha, que nos diferencia e o escondemos sob um tapete fino, sob uma máscara e fingimos ser todos iguais nesta noite e essa igualdade nos livra de situações mil, criadas por nossos cérebros e mentes enganadoras.
Colocamos nossas fantasias de reis e príncipes e celebramos através do personagem e não com nossa própria identidade - nem todos fazem isso - e é esta a causa das "bads" que afligem a tantos. Pintamos um mundo perfeito, com pessoas perfeitas, músicas perfeitas, corpos perfeitos, status perfeitos, liberdades perfeitas, luzes perfeitas, aromas perfeitos, interatividade perfeita sem a responsabilidade de que amanhã, ou logo mais, quando as luzes se acenderem, a música parar e formos jogados sem dó nem piedade no mundo real, veremos o tamanho do engano a que nos submetemos - engano consentido, diga-se.Permitir-se enganar não é de todo ruim; na verdade é até sadio já que vivemos construindo mundos imaginários pelos quais buscamos construir. Entretanto, o mal consiste em enganar-se duplamente, primeiro construindo um ambiente que não existe: o da perfeição irrestrita; e segundo, ao voltar ao mundo real, menosprezar que vivenciamos de fato um sentimento real legando-o o status de falsidade, reduzindo nossos próprios sentimentos a mentiras, nos colocando em baixo estima e forçando-se a assumir:"que burro fui ao construir essa perfeição. Isso não existe. Só um idiota acreditaria nisso. Eu não sou tão feliz assim. Olhe pra mim agora; em que me assemelho àquele que estava dançando loucamente na noite passada?" Aí está o grande erro.
Aquela euforia, entusiamo, alegria, felicidade, foram reais. Você vivenciou este sentimento, correto? Alegrou-se, sentiu-e unificado com todos os demais participantes. Por mais que estivesse sob efeito de alguma droga, ela te pôs em contato, com algo momentaneamente real. O que precisa entender é que a realidade do momento não é utópica, é incontestável, verídica e não há razão para duvidar dela já que você sabe muito bem o que sentiu.
No campo da liberdade é disso que se trata, de sentir-se livre e permitir-se enlouquecer um pouco e sem culpa, de maneira que tenha suas doses de alegria, euforia, unidade e contentamento de uma forma controlada e segura. Por favor, não entenda que estou incentivando o uso de entorpecentes. O que quero dizer é que existem formas de se alcançar a liberdade de suas amarras mentais e que somente após a permissão desta liberdade "assistida" é que se poderá ter contato com um sentimento de liberdade e união que nos porá de frente a um êxtase nunca antes vivido e que sempre será diferente de uma experiência para outra, de um momento para outro, de uma celebração para outra.
Reitero que é preciso haver um motivo especial que identifique você e o objeto a se celebrar. Sem isso não haverá ambiente propício ao alcance desse êxtase compartilhado e certamente se sentirá um peixe fora d'água.
À parte essa liberdade, é preciso assumir seu papel na celebração. É preciso entender que quando se coloca um personagem em cena não é você que está alí e as pessoas não o verão através de sua identidade, mas através do personagem. Aja como o personagem, fale como o personagem, dance como o personagem e assuma a responsabilidade pela paixão e encanto que o "personagem" causa, não você, isso se você decidir por seu monstrinho para fora.
Homens que se vestem como mulher, mulheres que se vestem como bichos, crianças que se transformam em seres magicamente animados; nada disso é real, porém no momento da celebração sim, isso existe, é real e tangível. Poderá ser um "ninguém" nos dias comuns, mas nos momentos de celebração será o mais importante, chamando a atenção de todos, o que não lhe será uma a garantia de reconhecimento após o término do tal festejo.
Muitas pessoas assumem personagens nas baladas e se esquecem que o ser humano por trás daquela máscara pode ser mais ou menos interessante e então se sentem enganados, seja por si mesmos ou por pessoas que se aproximam interessadas naquilo que viram na noite, ou seja, uma sombra na caverna.
É preciso compreender o seguinte: por quê quer ser reconhecido? por uma personagem, por sua identidade real? Clark Kant é um jornalista, o SuperHomem é um herói; ambos convivem sob a pele de uma mesma pessoa porém sofrem dilemas existenciais distintos que às vezes se encontram, mas de soslaio.
Suponhamos que você assumisse ser o Super-Homem por uma noite. Certamente atrairia muitos olhares, despertaría inúmeras paixões, mas e quando voltasse a ser o Clark ou o Peter? Isso te faria deixar de ser um herói? De forma alguma.
Como heróis que somos, nosso maior desafio é conter nosso ego para não revelar nossa identidade secreta; é passar despercebido pela massa para então causar o alvoroço quando ressurgirmos com todo nosso poder. Ser super herói implica anular-se. Apenas os vilões querem a glória eterna. Querem o poder, dia e noite e não sabem lidar com as doses homeopáticas de reconhecimento; são tomados pela vaidade de terem os holoftes sob sí todo o tempo.
Quem você é? Sabe lidar com o seu personagem e aceita ser o desconhecido quando necessário? Ou não consegue viver no anonimato? Lembre-se que ali no fundo existe um ser mágico que surgirá no momento propício.
Sobre a "bad"? Pense bem sobre isso da próxima vez em que for se aventurar pela noite.
Alguns me dirão "estou tão louco que nem mesmo consigo pensar", pois aconselho a começar a exercitar o auto-controle para que não perca as rédeas sobre sua vida, caso contrário será sempre afligido por algo que não sabe de onde veio, porque veio, a que veio e da parte de quem.
E para finalizar quero dizer que a tal "bad" é um sintoma de reprovação, de condenação. Portanto, o que não foi coerente com sua vida, com seu personagem, com sua realidade criada? O que te envergonhou em você mesmo? Respondido isso e pensando nos últimos três parágrafos afirmo que nunca mais terá uma bad na balada, com ou sem as balas.
