9.27.2010

A "BAD" DA BALADA QUE A BALA DÁ



Uma das principais formas de obtenção da felicidade - momentânea - é a celebração, e não importa o motivo desta reunião, se é para festejar uma fase que se inicia, uma vida, a memória de uma morte, de um desafio vencido, sempre nos reunimos entusiasticamente em torno da celebração de algo.
Uma notável filósofa americana diz que para uma celebração ser completa e nos elevar aos ares de felicidade e euforia precisa ter:
- símbolos: pelos quais os participantes possam se identificar;
- fantasias e personagens: não importa se figurativamente, com roupas e acessórios, ou se usando do apelo pessoal para encenação;
- perda, esperança e conquista: um amor perdido, a esperança de um mundo melhor, a conquista de qualquer grande sentimento;
- corpos: desnudanados e enlouquecidos, com certo apelo sensual.
- Liberdade: o principal componente, pois sem a liberdade não há felicidade nem celebração.

Tenho visto muitas pessoas relatarem que se sentem péssimas quando voltam da balada. Algumas dizem que se sentem assim após o uso de algum entorpecente, outras relatam a mesma situação sem mesmo terem ingerido alcóol, o que me fez perguntar a razão de algumas pessoas se sentirem mal após a mesma experiência em que outras pessoas não relatam a mesma situação.
Me pus a analisar o mérito e observei certas particularidades. Comecemos pelo fato de que as celebrações precisam ter alguma relação particular conosco, deve ter alguma representação particular nem sempre consciente. Às vezes se vai à balada querendo companhia de estranhos (ausência de julgamento), companhia dos amigos (sentimento de unidade, de parte de um todo), em busca de um amor (pequeno romance, o tal lance da "dor, esperança e conquista"), pelo hedonismo e voyerismo. Enfim, a balada tem que ter um motivo específico. Pergunte-se: que motivo me faz sair de casa num sábado a noite? Mas ser feliz ou ter momentos de prazer não é uma resposta, é um objetivo, portanto justifique seu objetivo em termos racionais, com três por quês:
Eu quero por...X
Porque X? por Y!
Porque Y? por Z!
Porque Z? .... eis sua resposta.

Sinceramente me preocupo com meus amigos que relatam esse sentimento de vazio pós-balada, já que isso denota que a celebrção foi um grande engano da mente contra sí mesma. Nosso Ego querendo enganar ao Id, sendo que este nos confrontará tão logo assuma o comando e então nos vemos aos prantos sem saber o motivo dessa depressão.

Há de convir comigo que é estranho pensar em alguém que se sente mal depois de momentos de felicidade extrema. Não estaríamos preparados para essa vivência intensa? ou será que no meio da ocorrência algo em nossa química mental nos mente a ponto de acharmos que está tudo bem quando tudo vai mal?

Pois quero voltar a tratar da liberdade, último e principal ítem em nossa lista acima.
Preste atenção que toda e qualquer felicidade vem através do sentimento de liberdade: liberdade para amar, liberdade para ir, vir e estar no lugar que se quiser, liberdade para expressar sua identidade, liberdade de pensamento, de criação. A felicidade existe em razão do sentimento de liberdade. Só se pode ser feliz se se está livre, livre de julgamentos, livre de rótulos, livre... Em alguma parte dos nossos compartimentos cerebrais, pegamos aquilo que nos amedronta, que nos envergonha, que nos diferencia e o escondemos sob um tapete fino, sob uma máscara e fingimos ser todos iguais nesta noite e essa igualdade nos livra de situações mil, criadas por nossos cérebros e mentes enganadoras.

Colocamos nossas fantasias de reis e príncipes e celebramos através do personagem e não com nossa própria identidade - nem todos fazem isso - e é esta a causa das "bads" que afligem a tantos. Pintamos um mundo perfeito, com pessoas perfeitas, músicas perfeitas, corpos perfeitos, status perfeitos, liberdades perfeitas, luzes perfeitas, aromas perfeitos, interatividade perfeita sem a responsabilidade de que amanhã, ou logo mais, quando as luzes se acenderem, a música parar e formos jogados sem dó nem piedade no mundo real, veremos o tamanho do engano a que nos submetemos - engano consentido, diga-se.Permitir-se enganar não é de todo ruim; na verdade é até sadio já que vivemos construindo mundos imaginários pelos quais buscamos construir. Entretanto, o mal consiste em enganar-se duplamente, primeiro construindo um ambiente que não existe: o da perfeição irrestrita; e segundo, ao voltar ao mundo real, menosprezar que vivenciamos de fato um sentimento real legando-o o status de falsidade, reduzindo nossos próprios sentimentos a mentiras, nos colocando em baixo estima e forçando-se a assumir:"que burro fui ao construir essa perfeição. Isso não existe. Só um idiota acreditaria nisso. Eu não sou tão feliz assim. Olhe pra mim agora; em que me assemelho àquele que estava dançando loucamente na noite passada?" Aí está o grande erro.

Aquela euforia, entusiamo, alegria, felicidade, foram reais. Você vivenciou este sentimento, correto? Alegrou-se, sentiu-e unificado com todos os demais participantes. Por mais que estivesse sob efeito de alguma droga, ela te pôs em contato, com algo momentaneamente real. O que precisa entender é que a realidade do momento não é utópica, é incontestável, verídica e não há razão para duvidar dela já que você sabe muito bem o que sentiu.

No campo da liberdade é disso que se trata, de sentir-se livre e permitir-se enlouquecer um pouco e sem culpa, de maneira que tenha suas doses de alegria, euforia, unidade e contentamento de uma forma controlada e segura. Por favor, não entenda que estou incentivando o uso de entorpecentes. O que quero dizer é que existem formas de se alcançar a liberdade de suas amarras mentais e que somente após a permissão desta liberdade "assistida" é que se poderá ter contato com um sentimento de liberdade e união que nos porá de frente a um êxtase nunca antes vivido e que sempre será diferente de uma experiência para outra, de um momento para outro, de uma celebração para outra.

Reitero que é preciso haver um motivo especial que identifique você e o objeto a se celebrar. Sem isso não haverá ambiente propício ao alcance desse êxtase compartilhado e certamente se sentirá um peixe fora d'água.
À parte essa liberdade, é preciso assumir seu papel na celebração. É preciso entender que quando se coloca um personagem em cena não é você que está alí e as pessoas não o verão através de sua identidade, mas através do personagem. Aja como o personagem, fale como o personagem, dance como o personagem e assuma a responsabilidade pela paixão e encanto que o "personagem" causa, não você, isso se você decidir por seu monstrinho para fora.

Homens que se vestem como mulher, mulheres que se vestem como bichos, crianças que se transformam em seres magicamente animados; nada disso é real, porém no momento da celebração sim, isso existe, é real e tangível. Poderá ser um "ninguém" nos dias comuns, mas nos momentos de celebração será o mais importante, chamando a atenção de todos, o que não lhe será uma a garantia de reconhecimento após o término do tal festejo.

Muitas pessoas assumem personagens nas baladas e se esquecem que o ser humano por trás daquela máscara pode ser mais ou menos interessante e então se sentem enganados, seja por si mesmos ou por pessoas que se aproximam interessadas naquilo que viram na noite, ou seja, uma sombra na caverna.

É preciso compreender o seguinte: por quê quer ser reconhecido? por uma personagem, por sua identidade real? Clark Kant é um jornalista, o SuperHomem é um herói; ambos convivem sob a pele de uma mesma pessoa porém sofrem dilemas existenciais distintos que às vezes se encontram, mas de soslaio.

Suponhamos que você assumisse ser o Super-Homem por uma noite. Certamente atrairia muitos olhares, despertaría inúmeras paixões, mas e quando voltasse a ser o Clark ou o Peter? Isso te faria deixar de ser um herói? De forma alguma. 
Como heróis que somos, nosso maior desafio é conter nosso ego para não revelar nossa identidade secreta; é passar despercebido pela massa para então causar o alvoroço quando ressurgirmos com todo nosso poder. Ser super herói implica anular-se. Apenas os vilões querem a glória eterna. Querem o poder, dia e noite e não sabem lidar com as doses homeopáticas de reconhecimento; são tomados pela vaidade de terem os holoftes sob sí todo o tempo.

Quem você é? Sabe lidar com o seu personagem e aceita ser o desconhecido quando necessário? Ou não consegue viver no anonimato? Lembre-se que ali no fundo existe um ser mágico que surgirá no momento propício.

Sobre a "bad"? Pense bem sobre isso da próxima vez em que for se aventurar pela noite.
Alguns me dirão "estou tão louco que nem mesmo consigo pensar", pois aconselho a começar a exercitar o auto-controle para que não perca as rédeas sobre sua vida, caso contrário será sempre afligido por algo que não sabe de onde veio, porque veio, a que veio e da parte de quem.

E para finalizar quero dizer que a tal "bad" é um sintoma de reprovação, de condenação. Portanto, o que não foi coerente com sua vida, com seu personagem, com sua realidade criada? O que te envergonhou em você mesmo? Respondido isso e pensando nos últimos três parágrafos afirmo que nunca mais terá uma bad na balada, com ou sem as balas.

9.23.2010

O que lhes narrarei aconteceu há algum tempo e somente após a leitura de texto do João do Rio encorajei-me a escrever. Relutei sobre isso já que assumir os feitos me causaria primeiramente vergonha na sequência do receio por interpretarem-me como bajulador dos vícios, muito emobra todos sejamos tomados por eles em maior ou menor proporção.

Estava eu andando pelas grande Nossa Senhora à companhia de um amigo local. Falávamos das vicissitudes, de trivialidades, de como a vida se tornara dificil e árdua naquela cidade, ele com muito mais propriedade que eu já que era forasteiro por ali. Havíamos nos encontrado numa banca de jornal alí próximo à Siqueira Campos. Questionei-lhe se quereria parar em algum buteco a fim de conversássemos com alcóol por companhia, ao que negou-se a intenção.

Continuamos a caminhada rumando a algum lugar que ainda me era desconhecido. Falávamos das aventuras de cada um, cada qual compartilhando os seus desejos e feitos como se houvessemos conquistado uma batalha da qual éramos as vítimas e os libertadores.

- Estamos quase chegando. - dizia em tom pacificador.

- Brother, nem esquenta. 

Passado o hotel Palace, já chegávamos à avenida Princesa Isabel e com isso a ansiedade também aumentava, tendo como único motivo o desconhecido, já que eu não sabia qual meu destino e devo confessar que a ausência de maior intimidade e conhecimento deste novo amigo também me punha um poucp nervoso, mas controlei-me.

Seguimos sem dar muita atenção a qualquer passante ou outra coisa que em situações normais em que uma pessoa caminha sozinha pela rua possa, lhe tomaria.

Já passados vinte minutos atravessados a avenida e seguimos rumo à portaria de um edifício um tanto prejudicado pela ação impiedosa dos anos. Sinceramente meu receio aumentou ainda mais depois do elevador que nos levaria ao andar desejado. O medo de que ele não nos aguentasse e despencasse daquela altura me pôs num estado de alerta acima de qualquer situação anterior.

Enfim chegamos a um apartamento tão puído quanto o aparentava pelo lado de fora.

Entre uma conversa e outra meu amigo me ofereceu um destes cigarros naturais contra os quais tem se feito um alarde tremendo na sociedade de modo a impedir seu uso, embora todos concordemos que a sociedade vive e existe em torno das proibições que lhe são impostas e por ela mesma desrespeitada.

Dei um trago, segurei as brumas como manda o figurino e expelí. Conversámos assuntos esparços entre uma tragada e outra. Assumo ja tê-lo feito numa outra oportunidade porém sempre me julguei resistente a essas coisas naturais, exatamente por já fazerem parte da minha natureza, entretanto, desta feita os procedimentos tomaram rumos diversos e creio ter sido em razão de meu amigo não ter usado material virgem, puro, e sim a soma do seu próprio histórico. Imagino eu que tenha sido esse material viciado que me tomou em tamanho torpor.

Derepente eu já não tinha tanto controle sobre meus pensamentos como outrora. Deu-se início uma série de figuras inanimadas surgindo de minha mente. Fui em busca de seu domínio sem lhes permitir que saíssem de minha mente e tomassem o mundo real.

Mais alguns tragos e já estava absolutamente entregue a meus pensamentos. Não dominava minha língua, meu corpo, meus pensamentos. Era como se alguém houvesse tomado conta de mim, porém esse alguém era uma parcela da minha própria personalidade, uma parcela e um eu que eu mesmo não contatara havía algum tempo.

Eu e meu interlocutor conversávamos sobre coisas desconexas. Meu pernosticismo afloráva enquanto um fato inédito estava em curso: nunca tive contato com esa psiqué premonitória que agora se apresentava. Era como se eu pudesse ler exatamente o que passava na mente do meu amigo. E lia absolutamente tudo: seus pensamentos, as relações que os criavam... era como se eu estivesse presente em sua sinapse e tomasse conhecimento dos caminhos de sua mente antes mesmo que se tornasse realidade Foi então que espantei-me.

Alguns de seus pensamentos não eram os melhores que alguém pode ter em relação a outrém considerado seu amigo. Por diversos momentos pressenti um perigo iminente que me mandava sair imediatamente daquele lugar, sem demora, caso contrário alguma fatalidade poderia sobrevir.

E assim foi.

Disse-lhe que o tempo urgia em que me retirasse de volta ao hotel no qual eu me havia hospedado. Ele então pediu-me que ficasse mais um pouco, porém aqueles meu sentimentos e pressentimenos não me abandonavam e com eles um sono terrível, presente digno da originalidade de Morfeu.

Ao me aperceber completamente sem controle, tentei de toda sorte não transparecer meu momentâneo enlouquecimento.

Corri através das ruas... enlouquecido, desnorteado e os pensamentos me diziam: - cuidado para que as pessoas não o vejam neste estado.

Que fama teria eu então? Além do mais também ouvia minha voz pedindo que cuidasse de minha carteira e do meu celular.


- Alô! É do céu? Preciso de algum anjo que esteja disponível para socorrer uma alma sôfrega. Como assim não há? Preciso disto imediatamente, meu senhor. Pois bem, serve-me este mesmo. Mande-o agora.


Arrebatei-me daquele lugar levado por um anjo para junto de outro anjos iguais. Agora em segurança dei-me o devido descanso, a meu corpo, à minha mente e à minha alma. Enfim dormi.

9.06.2010

Fico pensando em como começar a escrever.

Sei que já escreví inúmeras vezes sobre esses sentimentos. Já me disseram que sou extremamente sentimental; outros disseram que sou muito racional. Mas é fato que sou a junção mal forjada de ambos os extremos. E outro fato é que não pretendo ser a cópia perfeita de um ou de outro. Não vejo como inútil ou depreciativo ser um ou outro, ou ambos.

Creio que seja importante, para minha própria opinião, estar consciente do que sou independente do que as outras pessoas pensem. Penso que estabelecer-se requer uma força de caráter capaz de superar as crises provocadas pelas pedras atiradas por aqueles que crêem que nossas atitudes pudessem ser lapidadas em suas arestas aqui e ali.

Está sendo dificil deformar-me a ponto de retirar de mim as cicatrizes que o passado me impuseram. Mas que vida é essa que quer se livrar do próprio passado? O que sou eu senão um produto das minhas vivências, por mais incorretas, deformantes, extravagantes que possam ser? Querer livrar-me destes sulcos é o mesmo que me negar, me trair, dizer que não sou senão uma folha em branco sempre procurando o que lhe preencher sem levar em consideração que já há linhas impressas.

O que quero dizer é que... não importar-me é uma forma de dar atenção de uma forma tortuosa e talvez não compreensível a todos, o que não faço que sempre aconteça.

Outros já me disseram que sou a própria incompreensão; que existe uma cortina entre o mundo e eu. Não sei se é esta a imagem que passo, mas até fico orgulhoso desse "átrio" que separa as realidades, já que para adentrá-lo é preciso ter uma vontade sobrepujante e uma coragem que lhe faça ultrapassar a barreira do não-visível.

Também ouvi dizerem que fizeram muito, que deram um passo além... Falam bonitas palavras. O pernosticismo reina. Bajulam, elogiam, diziam ter dado passos que para mim é o mínimo que se possa fazer, o que para suas realidades talvez seja muito. E na minha negação, escarnecem, zombam, esnobam, deturpam... como se o que dizem fosse muito mais importante do que qualquer coisa no mundo. Como se o que sinto não importasse, não bastasse, não tivesse valor. Seus sentimentos é o que importam e apenas isso.

Me pedem sacrifícios em nome de deuses que desconheço. Me pedem que faça uma oferta voluntária a um ídolo que não sei de que forma usará minha oferenda e nem mesmo que valor esta minha entrega conquistará a seus olhos. Mas para quê saber de tudo isso? Por minha vontade de entender a valia das coisas. Gosto da classificação de valores. Isso me ajuda a tornar certas coisas importantes, urgentes ou triviais. E pelo que compreendo a frivolidade é algo que se esconde, usando a isca dos sentimentos.

Dizem que o peixe morre pela boca: abri a minha e agora, sem ar, morro cada dia mais.

Mas a vida é essa entrega. É doar-se... mas doar-se com valor, com a certeza de que saberão usar o objeto de doação. Não é dar-se por dar. Sem pérolas aos porcos. Mas os que chafurdam na lama pedem jóias e se tornam raivosos por não saberem explicar seus motivos, ou apenas por pedirmos suas explicações, como se não fosse um insulto retribuír-lhes os favor, antes de fazê-lo, com o questão do favorecimento.

Calejei-me, escaldei-me, dolorí-me, enrigecí-me...

Ainda não vejo chave que me liberte, porém a prisão tem se apresentado como uma parceira fiel e amável. Fugir dela talvez seja meu erro. Entregar-me a seus vaticínios talvez seja o mais correto a se fazer neste momento, pois a posição astrológica preveniu-me quanto a essas disassociações.

Como filho de Hermes, da linhagem real da casa de Tróia, guardador dos segredos de Perséfone e Coré, dos campos Elêusis, devo voltar minha atenção aos segredos, à Arte!

9.01.2010

"Tão bom quanto esconder o que geralmente é mostrado é mostrar o que geralmente está oculto."
(Jennifer Michael Hecht - O Mito da Felicidade - ed.larousse 2009)

É interessante pensar sobre esta afirmação da filósofa americana Jennifer Hecht, quando trata do tema "fantasias e carnaval medieval". Ela diz que quando assumimos a máscara de uma personagem, assumidos também sua identidade, seu comportamento, até que nos desfaçamos dessa fantasia, fazendo-o com gratidão e alegria, pois a responsabilidade em ser outra pessoa e compreender seus pesares nos faz querer ser nós mesmos com menos medos daquele bicho-papão de até então.

Refleti bastante sobre esta questão e sobre as minhas celebrações (baladas e festas). Pensei também sobre uma certa vergonha em assumir-se mortal quando nos colocamos em comparação com deidades de outro panteão (pessoas saradas, magras, convencionadamente bonitas, inteligentes, bem sucedidas).

É revelador perceber que a maioria das músicas que nos faz viajar quase que literalmente, são canções que falam de uma felicidade extasiática: "what a wonderfull world this will be", "I gotta a felling that tonight is gonna be a good night", e tantas outras que você certamente está se lembrando agora. Porém mais revelador ainda é perceber que as pessoas atualmente reclamam de uma certa solidão que perpassa na esfera sentimental e familiar. Dizem que não há quem os compreenda, que não há quem esteja disposto a se pôr em um relacionamento afetivo sem as cobranças de mudanças de comportamento do parceiro; enfim, são elencados inúmeras desculpas para justificar a solidão consentida e mascarar esta mesma solidão com a reclamação por se estar neste estado último, o que é contraditório, convenhamos.

Nos reunimos periodicamente em grupos para celebrar e falar das vicissitudes e efemeridades da vida, porém não queremos falar das dificuldades, não queremos ouvir lamentos e choramingos. Queremos ter ao nosso lado pessoas que mesmo em meio às adversidades saibam elevar seus espíritos e reinem sobre o estado de certo desespero. E ainda que no desespero, também celebramos este estado quando dizemos "I wanna lose control", como uma canção que imprime em nossos espíritos a liberdade que nos falta, seja naquela reclamação sentimental, profissional ou familiar.

Posterior aos nossos encontros entre amigos, nos reunimos num grupo ainda maior para afirmarmos juntos que perderemos o controle, que nos daremos a oportunidade de quebrar os paradigmas e dogmas sociais, que faremos "juntos" um mundo melhor cheio de alegria e felicidade. Celebramos, dançamos e rodopiamos por isso. É algo que efetivamente nos comove. Entretanto elevamos essa bandeira a meio mastro.

Quando estamos com nossos amigos, via de regra nos importamos quando outros amigos não oriundos deste grupo vêm comunicar-se conosco. Muitas vezes o sorriso, o semblante de prazer se torna um convite a agressão não-verbal. Não permitimos que outras pessoas interajam conosco na busca por esse mundo livre e perfeito de festa e alegrias constantes.

É extremamente importante que os que cantam a pleno pulmão a ausência do bairrismo e da regionalidade por um  espírito global e uno, o façam constantemente em atitudes e não apenas nas palavras que musicalizam.

Está certo, algumas pessoas - menor parte - são hipócritas o bastante para cantar o que não fazem e reclamar de quem o faz.

Vejo como sendo um objeto dificultador destas ações de equalização e integração social o fato de que, imbuídos pelo êxtase, nos coloquemos na interatividade com objetivos de felicidade sexual, mais do que emocional, já que o emocional neste sentido que tratamos aqui tem a ver com a irmandade de nosso estado animal, humanos que todos somos.

Pensando nisso tudo, neste final de semana, domingo 29 de agosto desfrutei inteiramente desse espírito unificador e reconciliei-me com meu eu uno e plural ao mesmo tempo. Não direi que foi um desafio pois já venho nesta intenção há algum tempo mas, o interessante foi perceber quantas pessoas se propõem a estarem efetiva e inteiramente à disposição da felicidade do grupo e não pensando apenas em sua própria felicidade. Quantos cumprimentos vigorosos e efusivos recebi, quantos abraços despreocupados com o corpo úmido de suor vieram me encontrar, quantas pessoas cantaram e dançaram realmente por um momento de mundo melhor.

Como diz a música " drugs, sex, boys, girls, gays, straights.." quem se importa com o que se passa ao redor se o que todos buscam é a felicidade. Julgamos não o objetivo mas a via pela qual o alcançaremos. Todos concordamos que a felicidade é fundamental e primordial, é a busca essencial do ser humano, entretanto as convenções nos fazem dizer que determinadas felicidades são reprováveis.

Um famoso escritor disse que não estamos preparados para sermos felizes pois a felicidade consiste em uma inteligência emocional para lidar com a responsabilidade que a liberdade, sentimento intrínseco ao de felicidade, nos exige, o que faz com que constantemente vivamos na libertinagem, que é o desapego moral, ético e valoroso das regras sociais vigentes.

Quero com isso dizer que a felicidade é a liberdade do ser sob aquilo que lhe cerceie as ações desde que essa liberdade não traga prejuízo a outros membros desta comunidade.

Em sua próxima festa aproveite para exercer a liberdade e torne-se parte realmente integrante e harmônica do coro que entoar, seja ele qual for. Desenvolva valores morais como a solicitude, a presteza, a simpatia e transmita-o às outras pessoas de forma prática. Dissemine a felicidade. O campo ja está arado, a terra está pronta aguardando que alguém lhe ponha as sementes que irão crescer e frutificar .